Burnout: quando a dedicação ao trabalho ultrapassa o limite

Quando o compromisso profissional deixa de ser apenas dedicação e passa a consumir energia, relações e qualidade de vida, é preciso reconhecer os sinais antes que o esgotamento se torne parte da rotina.

Por a redação

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Burnout: quando a dedicação ao trabalho ultrapassa o limite

Crédito da foto: Arquivo da Redação.

Cansaço faz parte da vida profissional. Depois de um dia intenso, é natural sentir necessidade de descansar e recuperar as energias. O problema começa quando o esgotamento deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. Prazos, cobranças, excesso de responsabilidades, pressão por resultados e a dificuldade de se desconectar do trabalho podem transformar períodos de maior esforço em uma condição prolongada de desgaste.  Esse cenário ajuda a compreender uma reflexão proposta pelo filósofo Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do cansaço”. Ao analisar as transformações da sociedade contemporânea, Han afirma que as enfermidades que marcam uma época também estão relacionadas à maneira como as pessoas vivem, trabalham e são submetidas a determinadas formas de pressão. “Cada época possui suas enfermidades fundamentais. [...] Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal”, escreve o filósofo. Entre as doenças que, segundo ele, compõem essa paisagem, estão a depressão, o transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), o transtorno de personalidade limítrofe (TPL) e a síndrome de burnout. A reflexão de Han não substitui a definição médica do burnout, mas ajuda a contextualizar um fenômeno que ganhou espaço nas discussões sobre saúde e trabalho. O burnout está relacionado especificamente ao ambiente ocupacional e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), resulta do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o burnout é descrito como um fenômeno ocupacional, e não como uma condição médica em si. A OMS identifica três dimensões principais: exaustão ou sensação de esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental em relação ao trabalho, com sentimentos de negativismo ou cinismo; e redução da eficácia profissional. A definição é importante porque ajuda a afastar uma ideia equivocada: burnout não significa simplesmente estar sem vontade de trabalhar. Trata-se de um processo relacionado à exposição prolongada a fatores de estresse ocupacional, que pode modificar a forma como o profissional se relaciona com o trabalho e perceber sua própria capacidade.

Nem sempre o primeiro sinal é “não aguento mais”

O esgotamento profissional pode surgir de forma silenciosa. Uma demanda extraordinária se transforma em rotina. O profissional passa a chegar mais cedo, sair mais tarde, responder mensagens durante a noite e continuar pensando em problemas do trabalho nos momentos que deveriam ser destinados ao descanso. Para o psicólogo e diretor-geral do Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC), Felipe Goggi Rodrigues, um dos principais desafios está justamente em perceber quando o cansaço deixou de ser pontual. “Uma semana de trabalho intenso pode gerar cansaço, mas quando a pessoa passa a acordar cansada, permanece irritada, não consegue se desligar das responsabilidades profissionais e percebe que o descanso já não produz recuperação, é preciso prestar atenção. O corpo e a mente também dão sinais de que os limites estão sendo ultrapassados”, explica. Na rotina profissional, o excesso de responsabilidades também pode fazer com que o trabalhador perca, aos poucos, a percepção dos próprios limites. O que começa como empenho pode se transformar em uma rotina de pressão contínua. Para Felipe Goggi, essa responsabilidade não deve ser colocada exclusivamente sobre o trabalhador. “É preciso olhar também para o ambiente em que ele está inserido. Se uma equipe trabalha permanentemente no limite, se as demandas são incompatíveis com os recursos disponíveis ou se não existe espaço para diálogo, não adianta simplesmente dizer ao profissional que ele precisa ser mais resiliente. A saúde mental também depende das condições em que o trabalho acontece”, ressalta. Reconhecer o esgotamento é parte do cuidado com a saúde. Quando o cansaço se torna persistente e começa a afetar o trabalho, o sono, as relações ou a qualidade de vida, insistir em manter o mesmo ritmo pode aprofundar o desgaste. Nessas situações, procurar ajuda profissional é fundamental. Psicólogos e médicos podem avaliar os sinais, identificar possíveis causas e orientar o cuidado adequado. Reconhecer os próprios limites não é sinal de fraqueza, mas uma atitude de prevenção e cuidado.

"Cada época possui suas enfermidades fundamentais. [...] Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI.”  (HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 7.)